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Submitted by NUNO.CARVALHO@EDP.PT on
Tamara Alves (Portimão, 1983) entrevistada por Filipa Lowndes Vicente no maat a 10 de junho de 2022, dia da realização do mural "48 artistas, 48 anos de liberdade"
Tamara Alves - Daniel Rocha 2022

O 25 de Abril de 1974

Eu nasci em 83. Herdei a liberdade e os valores do 25 de Abril através da experiência e das histórias que marcaram a geração anterior, dos meus pais e avós. A primeira vez que trabalhei o tema do 25 de Abril foi em 2014, penso, para um concurso chamado “25 de Abril Hoje”, no qual Júlio Pomar era júri, e acabei por ganhar e realizar o mural. 
Não dou respostas muito óbvias. Faço com que as pessoas pensem. E continuei a pensar nas palavras dele… porque é que ele escolheu a minha peça, a forma como as personagens agarravam os cravos. Acabou por ser um tema que eu fui repetindo e fui trabalhando…
Fiz um mural gigante… um muro gigante com 200 metros quadrados. O muro está no Fórum Lisboa, na Av. de Roma: Tamara Alves 25 de Abril Hoje. O Júlio Pomar foi à inauguração. Foi uma experiência inacreditável, e eu agora estou a reviver isto… O mural tinha uma componente temática muito forte, sem ser aquilo que eu costumo trabalhar. Sem perder a minha identidade, claro. Aliás, a peça que estou a fazer hoje aqui foi uma peça que já tinha feito. 
 

Participação no mural do maat em 2022

Aqui, a minha personagem feminina, que está a segurar um cravo quase como se fosse uma arma, está assim com uma pose… Acho que as flores podem ser usadas também como metáfora e não como símbolo de fragilidade, mas de força. Força essa que também utilizo, mas aqui com o cravo, o símbolo do 25 de Abril, da Revolução. 
Eu tenho retratado mulheres para mudar a forma como elas são retratadas na história da arte ao longo dos tempos. Sempre deitadas, submissas, à espera do olhar do observador. Eu tento mudar essa narrativa, pôr a figura feminina em controlo, desperta, não deitada, a dormir, vulnerável, mas desperta, atenta. Não a olhas como presa, olhas sim como predadora. No sentido em que ela tem controlo da história. E reforço isso. 
Hoje estou a reforçar a ideia de que cá estamos e vamos estar sempre, e é bom pensar e repensar a palavra e a ideia de liberdade. Pensar a liberdade. Acho que é importante irmos pensando, ir trabalhando sempre esse conceito de liberdade. Liberdade interior, espiritual. Espiritual, coletivamente, o ser humano está constantemente em busca de libertação, dessa liberdade. Mas aqui, obviamente, tem um peso diferente. O peso é histórico, é político. Carregado nos ombros de muitos dos artistas que cá estiveram antes. Nós tentamos entender o que se passou, e tentamos evitar que se repita. 
Trabalho com a galeria Underdogs. Fizeram-me o convite para participar no mural e, sei lá, achei espetacular! Isto é algo inacreditável. Estarmos ligados àquilo que aconteceu no mural anterior e com pessoas que fizeram parte disso é refazer a história. 
Têm um peso tão grande. E estar ao lado deles... Imagino o que isto é para eles, porque muitos que estiveram em 74 já não estão entre nós. E fazê-lo com sangue fresco e ideias novas, e pensar o que é que é a liberdade hoje em dia. E voltarmos a trabalhar os mesmos temas. Não sei explicar… Para mim, isto é um marco, acho que é das coisas mais importantes que já fiz. Ou que estou a fazer.
Tenho aqui amigos porque isto, pelo menos no meio das artes, acaba por ser pequeno. E então se for “street art”, ainda mais pequeno é. Mas tenho muitos colegas, tenho colegas das Caldas, tenho colegas do mestrado. Por exemplo, a Alice Geirinhas tirou o mestrado comigo. Ela está aqui. E, como ela, variados artistas com quem já me cruzei, já trabalhei, tanto na minha área como na área mais conceptual. É interessante ter colegas de mestrado, colegas de faculdade e colegas da rua.
Ao meu lado, tenho a Sara e o André, que estudaram nas Caldas [da Rainha]. Estavam um ano à minha frente, mas lembramo-nos uns dos outros. Do outro lado – estou só a falar dos vizinhos, porque cheguei há pouco tempo – tenho a Ângela Ferreira, que não conhecia. Vamos falando, mandamos piadas. Está a ser giro porque eu percebo… Cheguei há pouco tempo, então estou a sentir a dificuldade dela e ela está a habituar-se à parede e ao método…
Sentes uma energia incrível a acontecer aqui e estou muito feliz por fazer parte disto. Eu acho que, quando virmos a parede toda, sinto que vou…. Estou aqui a falar contigo, já estou a ficar emocionada. Acho que vai ser incrível. 
 

Formação e percurso artístico: a rua como tela

Já tinha sido convidada para participar nalgumas coisas da Underdogs, no Festival Iminente. A galeria convidou-me para uma exposição individual, mas após a exposição terminar, entrámos em isolamento. Mas, de resto, sempre fui independente. Foi a primeira vez que estive associada a uma galeria. Mas acho que é a melhor galeria neste meio, faz sentido para mim.
A minha formação foi bastante académica. Tirei uma licenciatura nas Caldas da Rainha. Estão cá muitos dos colegas que tinha nessa altura. E depois fui tirar um mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas no Porto. E depois do Porto, vim para Lisboa. Já tinha escolhido a rua como tela, porque na altura era uma opção. Ou eram as galerias ou então tentávamo-nos safar, e a rua era uma galeria a céu aberto, não elitista. 
Sempre fui muito solitária. Só quando vim para Lisboa é que comecei a conhecer artistas de arte urbana, mas também na altura em que eu vim para Lisboa foi quando a coisa começou a crescer, apanhei mesmo a primeira vaga, e acabei por aumentar o ritmo…
Olha, eu sempre adorei desenhar. O desenho está muito presente no meu trabalho. E também procuro muito os livros. Gosto de refletir e ler antes de decidir o que é que quero fazer. Depois o esboço é rápido, dá-me imenso prazer, adoro desenhar. Mas sou muito cerebral nas coisas que faço. E às vezes nem estou tão preocupada com o resultado final. O processo, sim, é importante para mim.
Também escrevo sobre o que faço. Tomo muitas notas. Para a maior parte dos trabalhos que faço, tenho uma sinopse e acabo por contar uma história. Ou escrever um poema. Faço assim uma coisa. Eu não sei escrever muito bem, mas sim, preciso. Ajuda-me, porque sou honesta nas coisas que escrevo, e habituei-me a fazê-lo. Acho que é uma boa terapia, deitar essas coisas cá para fora. 
 

Ser mulher na “arte urbana”

Sempre cresci com uma educação sui generis. Os meus pais nunca me disseram que eu não podia fazer alguma coisa. Por isso eu nunca tive consciência de que poderia haver limitações ou tratamento diferente. Até houve alturas em que eu sabia que havia sempre – por exemplo, somos cinco artistas femininas –, havia sempre uma que ia preencher o papel: “OK, precisamos de uma menina aqui.” E, às vezes, se havia três festivais de arte urbana no país, era uma por ano num sítio. Nunca estávamos todas juntas, andávamos sempre a tapar buracos. Até ao cúmulo de uma vez me terem pagado para fingir que estava a pintar, porque precisavam de uma presença feminina, e na altura, por estupidez, precisava do dinheiro e aceitei. Até é algo de que me envergonho. Não tinha essa noção. Depois comecei a pensar: “Isto foi um bocado mau”. Mas hoje em dia, as coisas já são diferentes. E eu lembro-me de no tal primeiro Festival Iminente em que eu participei, as mulheres estavam em maioria. E isso não é normal. A curadoria era da Underdogs. Era do Vhils. E mesmo aqui [no mural do maat, no dia 10 junho 2022] tu percebes que… Não sentes? Acho eu, ainda não olhei, mas está tudo muito equilibrado em termos de género…. Isto é uma coisa incrível. 
Sabes aquela coisa dos papéis designados à mulher na sociedade? Há muitas mulheres que nem sequer ponderam estar aqui a pintar uma parede, a fazer qualquer coisa, porque é algo que: “Não, isso não”. Mas há uma viragem e eu sinto essa transformação. Acho que já são as coisas de que nós sentíamos necessidade há muito tempo. E as coisas começam a aparecer e começamos a vê-las acontecer. E isso é incrível, hoje passo por pessoas da minha geração que estão aqui, e mais novas também, que também estão aqui…. Há muita gente que não sente assim, mas eu sou otimista em relação às gerações futuras. Sei que às vezes é preciso forçar um bocado as coisas a acontecer, mas tenho esperança. Sou otimista.
 

Tamara Alves - Daniel Rocha 2022
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